Morar na Praia? Tô fora!

 

Durante anos eu tive o sonho da “Casa na Praia”. Mas não o sonho da casa para o fim de semana. Casa para moradia mesmo, para “o resto da vida”. Aquela ilusão de que minha vida seria um paraíso, igualzinho aos filmes e novelas.

Até que depois de muito tempo, com a filha morando no exterior, resolvi trocar o apto, o barulho, a poluição, o trânsito, etc. de Sampa pela minha tão sonhada “Casa na Praia”.

Procurei e achei a casa dos sonhos. Quando eu a vi, tive certeza: era como eu sonhara. Uma casinha no estilo “da vovó”, com um belo quintal (que eu transformaria em jardim cheio de roseiras), cômodos amplos e arejados!

E a rua? Tranquila! Uma casa num endereço privilegiado: 800 metros à direita o mar, 800 metros à esquerda a Serra do Mar – inclusive com uma tribo indígena que passa todos os dias pela porta da casa!

Perfeito, não?

NÃO!!!

A cidade é pequena... E sem nenhuma infra-estrutura. Os supermercados são sujos e o “básico” que eles oferecem é absolutamente insuficiente. A Cia. elétrica é a pior possível: tenho que colocar estabilizadores em todas as tomadas (antes disso perdi um rádio-relógio e um micro-ondas por causa da oscilação da eletricidade). O sistema de água é o mais rudimentar possível: não existe rede de esgoto (tenho que ter fossa em casa!) e qualquer chuva é motivo para falta d’água (dizem que caem barreiras no reservatório), isso sem falar nos feriados e temporadas, onde a falta d’água é fato!

Ônibus até que tem, mas tenho que andar 700 metros até o ponto mais próximo – faça chuva ou sol.

Chuva! Esse é outro problema: por aqui chove quase que o tempo todo! Nesses quase quatro anos, não me lembro de uma semana sequer sem chuvas!

E os feriados (como hoje, por exemplo)? Filas imensas no supermercado, na padaria, trânsito intenso, praias lotadas e sujas e “vizinhos” de temporada que adoram mostrar o quão potentes são os equipamentos de som dos carros – é uma mistura de ritmos numa disputa de volume, que enlouquece qualquer pessoa com mais de 30!

Isso sem contar que a aparente tranquilidade é realmente aparente! A molecada adora soltar pipas... Com cerol (cortante)! Fora que as pipas parecem ter uma atração irresistível pelo meu telhado! E haja paciência! Toda hora tem um menino subindo pelo muro e se arriscando no telhado para “resgatar” uma pipa! Resultado: tenho que ter um grande estoque de telhas para trocar as quebradas! E, nos últimos tempos, começou uma onde de assaltos por aqui, acabando com a tranquilidade de “portas abertas sem medo”!

Por essas e outras é que decidi: estou voltando pra Sampa.

Coloquei a casa à venda, e não vou esperar: minhas coisas vão para um guarda-móveis e eu ficarei no apto. de Sampa (onde minha filha está morando) até poder comprar algo por lá.

Vou procurar com calma, conhecer bem a vizinhança, para não cair numa roubada.

Quanto à praia? Acho que tive uma “overdose”! Vai demorar pra ter vontade de visitar!

 

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