No próximo dia 01 de Outubro, meu pai completa 90 anos. Em sua homenagem publico novamente um texto do ano 2010.

Tatina


Ele nasceu numa pequena aldeia na Polônia, no começo dos anos 20. Filho de um homem alto e magro e de uma mulher franzina, na qual o maior destaque eram os imensos olhos cor de mel.
Primogênito de uma família judaica religiosa, em casa aprendeu primeiro o Idish (dialeto usado pelos judeus europeus – uma mistura de alemão e hebraico). Nas ruas da pequena Kolomodlina começou a aprender o polonês e, com os amiguinhos de brincadeiras a canção “Tatina”.
Era uma canção engraçada, contando a história da menina Tatina que ficou doente e foi ao médico, recebeu um remédio e voltou pra casa, mas em vez de ficar boa ela sofreu mais com a visita ao médico do que com a doença: o carro em que viajava pulava muito pelas estradas e ele ficou com dor no traseiro.
Naquela época a inocente canção soava quase que pornográfica e o pequeno Zelig não ousou cantá-la em casa nem ensina-la aos irmãos. Mas adorava encontrar-se com os amigos e entoar “Tatina” quase aos sussurros, rindo entre uma estrofe e outra.
O tempo passou, Zelig foi embora da Polônia, veio para o Brasil. Tinha 7 anos quando chegou e foi colocado numa escola logo nos primeiros dias. Sofreu muito, pois não entendia nada do que os professores e colegas falavam. Afinal nunca havia escutado o Português antes.
Esforçado, em pouco tempo conseguiu acompanhar a turma e passou de ano com boas notas.
Estudou o antigo primário, depois um curso de desenho mecânico e foi trabalhar para ajudar a família. Os pais eram pobres (o pai trabalhava como passador numa lavanderia e a mãe era dona-de-casa). Como filho mais velho teve que arcar com a responsabilidade de ser quase um arrimo de família.
Com tanto trabalho e obrigações, esqueceu-se da velha canção polonesa.
O tempo passou, Zelig virou um homem grande e forte. Conheceu uma jovem frágil e bela, filha de uma família rica e se apaixonou. A jovem revelou-se “ousada” para os padrões da época: interessada no belo moreno, não esperou pela iniciativa de Zelig: numa bela tarde, surpreendeu-o com um apaixonado beijo.
Casaram-se depois de um breve noivado. Depois de um ano e meio, nasceu a primeira filha do casal, e logo em seguida a segunda filha. A primogênita tinha olhos verdes e serenos e lembrava a família da esposa. Já a caçula era franzina, de cabelos encaracolados e imensos olhos cor de mel, quase iguais aos de sua mãe.
Com mais responsabilidades, trabalhando cada vez mais, Zelig tornou-se cada vez mais sério, às vezes carrancudo.
Quando as meninas entraram na escola, voltavam sempre com novidades. A mãe fragilizada, não tinha paciência para ouvi-las, mas ele deixava sua seriedade de lado e divertia-se com as canções infantis entoadas desafinadamente pela caçulinha. Um dia, no meio dessa cantoria resolveu: iria ensinar “Tatina” para suas filhas.
Não foi fácil: a mais velha era séria demais e não gostou da história, já a caçula não conseguia repetir as palavras em polonês, ria da música, mas cantava tudo errado.
O tempo foi passando, as meninas crescendo e ele envelhecendo.
A mais velha lhe deu um neto tão sério quando a mãe. A mais nova lhe deu uma neta sorridente e de belíssimos olhos cor de mel – iguais aos de sua mãe!
A ligação entre ele e a menininha dos olhos cor de mel era muito especial, um amor desses que parece vir de vidas passadas.
Com o tempo passando, Zelig começou a perceber que sua memória não era a mesma: conseguia lembrar-se de fatos ocorridos a mais de 50 anos, mas não se lembrava do que havia acontecido naquela manhã!
Era a hora de preparar-se para passar seu legado adiante: Chamou a netinha, colocou-a no colo e contou-lhe coisas da sua infância em Kolomodlina, e terminou seu relato cantando “Tatina”.
A pequena deliciou-se com a história e, com todo carinho e atenção, esforçou-se para aprender a letra da música.
Não foi preciso muito tempo: como se fosse uma pequena polonesinha entoava a canção perfeitamente no mesmo dia em que a aprendeu.
O tempo foi passando e a doença foi avançando. Zelig não é mais aquele homem forte e grande. É um velhinho curvado, os olhos apagados.
Precisa de ajuda para vestir-se, banhar-se, comer. Passa os dias sentado, quieto.
Quase não fala e pouco sorri.
Mas de vez em quando o sorriso brota em seus olhos, espalha-se pelo rosto e chega até a boca, transformando-se numa gostosa gargalhada: é quando a linda senhorita de olhos cor de mel vai visitá-lo, senta-se ao seu lado, segura em suas mãos e canta para ele “Tatina”.

Reciclagem

O "Baú de louças" virou "mesinha de centro" e a "garrafinha de licor de banana" virou vaso. As rosas são do meu jardim e só estão aí porque o vento quebrou o galho

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